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A amamentação não cabe toda só em agosto, mesmo que ele seja dourado

Do site da Crescer

Confira a nova coluna do pediatra Moises Chencinski, colunista da CRESCER!

por Dr. Moises Chencinski - colunista

07/09/2026

Vamos fazer uma lista de checagem? Você já passou por isso no seu dia a dia?

* Rede de apoio insuficiente com sobrecarga materna;
* Isolamento materno que afasta a lactante de seus círculos de convivência;
* Estigma do “peito público” com julgamentos e sexualização;
* Pressão social contraditória com cobrança de amamentar perfeitamente e volta ao trabalho produtivo;
* Retorno precoce ao trabalho em mães informais, autônomas ou sem estabilidade;
* Custo dos equipamentos para apoio como bombas de extração ou sutiãs de amamentação;
* Vulnerabilidade com exaustão física extrema;
* Mitos e crenças populares como a do leite fraco e que seca com sustos;
* Cultura do desmame precoce com chás, água, comida antes dos 6 meses;
* Normalização de fórmulas infantis como modernidade, praticidade, status;
* Licença-maternidade insuficiente e licença-paternidade insignificante (mesmo com a nova proposta);
* Salas de apoio à amamentação na volta ao trabalho;
* Descumprimento das pausas legais para extração e armazenamento do leite materno nos locais de trabalho;
* Marketing agressivo dos produtos lácteos comerciais e bicos ainda sem controle rigoroso de influenciadores;
* Racismo institucional na saúde prejudicando mulheres negras e indígenas na informação, no controle de dor;
* Disparidade no acesso à informação sem equidade no alcance das campanhas e consultoria;
* Maior vulnerabilidade, especialmente de mulheres negras, em trabalhos informais ou terceirizados;
* Dor e traumas mamilares nas primeiras semanas com orientação nem sempre apropriada e precoce;
* Falta de manejo clínico e profissional com recomendação desnecessária de fórmulas, chupetas e mamadeiras;
* Saúde mental materna com baby blues, depressão pós-parto que podem influenciar no desmame precoce;
* Prematuridade com taxa ainda de 10 a 12% ao ano que nos coloca em 10º lugar no mundo;
* Doação de leite irregular, mesmo com a maior rede de bancos de leite humano no mundo e exportando tecnologia de alto padrão;
* Leite materno nas creches como uma rotina de continuidade para todas as díades mãe-bebê;

E tem muito mais de onde vieram essas.

E essas são só algumas das situações que “não funcionam como deveriam” e que merecem mais atenção, reavaliação e redirecionamento. São apenas parte dos desafios que a amamentação escancara e que ainda carecem de ação, de uma abordagem sistêmica, integrada, proativa, definitiva e que seja de consenso entre profissionais da área de saúde materno-infantil, dos poderes públicos, das mídias, dos locais de trabalho, das creches, da sociedade.

Será que ainda tem quem não enxergue isso? O meu AGOSTO DOURADO me mostrou que sim. Ainda temos um longo caminho a percorrer para que toda essa dinâmica estabeleça a consciência de que esse é um movimento que existe, não acaba e que tem, a cada passo de evolução, mais e mais barreiras surgindo.

Enquanto não nos organizarmos e continuarmos encarando essas questões de forma isolada ou não enxergarmos o todo, as chances de soluções e de evolução ficam muito reduzidas.

O tema da Semana Mundial de Aleitamento Materno de 2.026 mostra, como núcleo, a ideia de “Fortalecer o que Funciona”, trazendo à tona ações mundiais que tiveram êxito nos países onde foram executadas. Mas, também, aponta os desafios encontrados nesses países que têm estruturas sociais, econômicas, culturais, trabalhistas específicas que, na maioria das vezes, têm pouca aplicabilidade em outras localidades.

Se é para “fortalecer o que funciona”, não estaríamos fazendo “mais do mesmo”, deixando de corrigir situações que precisariam ser modificadas para funcionassem? Aqui eu acredito que fique mais claro o meu “copo meio vazio”.

O que funciona está no "copo meio cheio" e é fundamental que seja trabalhado e fortalecido constantemente para que ele pelo menos se mantenha assim, não vaze e não esvazie mais. Mas será que só isso será suficiente para encher o copo todo? Já estamos nessa trilha há um bom tempo e só agora estamos perto da metade , por exemplo, no que diz respeito ao aleitamento materno exclusivo em crianças abaixo de 6 meses de idade (48,7% em 2019 – um aumento de 8,6% em 13 anos).

Vou “roubartilhar” 4 pensamentos de pensadores importantes para me ajudar nessa:

"Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo."
Ariano Suassuna

É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…
Paulo Freire

Faça o teu melhor, na condição que você tem, enquanto não tem condições melhores, para fazer melhor ainda!"
Mario Sergio Cortella

A vida é muito curta para ser pequena.”
Benjamin Disraeli

E vou acrescentar mais um para os que pensam que o meu “copo meio vazio” é surreal ou utópico:

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
Fernando Birri (popularizada por Eduardo Galeano)

Assim, meu “copo meio vazio”, está completamente cheio desse realismo esperançoso, talvez utópico, que não me permite parar de caminhar, ou apequenar a vida, agindo, mesmo sem as condições ideais até que um dia, mais uma vez me apoiando em Paulo Freire:
É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.”

Setembro de 2026. Começo uma trajetória tão prazerosa quanto desafiadora, para além do AGOSTO DOURADO, por mais 11 meses, 11 capítulos de uma conversa que não pode parar. Assim, agosto deixa de ser um fim para ser um recomeço, ou como já escrevi, me referindo a Nego Bispo, quilombola do Piauí, ativista político, escritor e poeta:

Amamentar tem começo, meio e começo.”

Convido vocês para me acompanharem em uma campanha que está só no primeiro começo para falarmos sobre, pensarmos em e agirmos para um ano dourado de aleitamento materno, até o próximo começo.

AMAMENTAÇÃO: TODO MÊS IMPORTA.

Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545