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Ele podia trazer um copo de água para ela, enquanto ela amamenta...

Do site da Crescer

O pediatra e colunista da Crescer faz uma provocação em relação ao papel do pai na amamentação

por Dr. Moises Chencinski - colunista

24/02/2026

Eu já escrevi em outro texto aqui na Crescer o quanto isso me incomoda, me deixa... piiiiiiii (censura mesmo).

E, para mim, é como está no título desse artigo anterior: “Pai ajuda, sim. Mas não é só isso. Pai está presente. Pai participa. Pai compartilha. Pai tem iniciativa”.

Assim, justifica-se a consulta pré-natal com pediatra para a família. E aí, inclui-se o pai, ou companheiro ou companheira. Aqui, quero abordar especificamente a influência do pai na proteção, apoio e promoção da amamentação, mas também, e principalmente, na vida da díade mãe-bebê.

Recentemente, recebi um post da minha cunhada (obrigado, Selma) de um perfil nada tradicional ou relacionado a famílias (@musclemorph) relatando que, na Polônia, os pais, ao invés de estarem apenas ao lado da cama na maternidade, foram colocados pelas enfermeiras com seus bebês diretamente no tórax, para um contato pele a pele, desde 2.014. Essa ação foi chamada de “cuidado canguru para pais”, quando as mães precisavam de repouso ou um tempo de recuperação, com a expectativa de ajudar os bebês.

Com essa estratégia, o choro do bebê diminuiu, sua frequência cardíaca se estabilizou, sua respiração regularizou assim como a oxigenação melhorou, sua temperatura corporal regulou mais rapidamente e seu padrão de sono estabilizou. Ou seja, objetivos do contato pele a pele também foram atingidos com o pai.

O que não fazia parte da proposta surpreendeu e animou a equipe. Os pais também experimentaram mudanças biológicas que puderam ser detectadas, analisadas e confirmadas, como o aumento dos seus níveis de ocitocina, diminuição dos níveis de cortisol e testosterona, diminuição de sua taxa cardíaca e ativação dos circuitos de vínculo com redução de estresse, entrando no “modo cuidador” (conforme citado no post). 

Assim que essa conexão mais profunda ocorre através do contato pele a pele, os pais passaram a ser mais responsivos emocionalmente, se sentiram mais calmos e presentes e criaram um senso de responsabilidade influenciando, diretamente, na paternagem.

E, a partir de então, hospitais pela Europa passaram a adotar programas inclusivos dos pais no contato pele a pele.

Mas sabem o que é tão raro quanto pais que adotam essa conduta mundialmente? Estudos que comprovem essa prática cientificamente.

Em 2006, uma revisão de literatura (1983-2003) com estudos que mostram a eficácia de intervenções para pais com bebês, através de ações que contribuem para o desenvolvimento infantil (entre eles, massagem, método canguru, grupos de discussão e programas de treinamento para pais). E a conclusão foi que há evidências de que, se essas intervenções envolverem participação ativa ou observação do próprio filho, ela pode ser eficaz para melhorar as interações do pai com o bebê e uma percepção positiva da criança.

Em 2016, uma outra revisão (12 estudos entre 1995-2015) sobre o impacto do contato pele a pele entre pai e bebê e os resultados para os dois foi realizada em Singapura. Os resultados apontaram para “impactos positivos nos resultados para os bebês, como temperatura, dor, marcadores biofisiológicos, resposta comportamental, bem como nos resultados paternos, com desempenho do papel parental, o comportamento de interação, o estresse e a ansiedade paternos”, demonstrando, assim, que “o envolvimento do pai no contato pele a pele parece ser viável e benéfico tanto para os bebês quanto para os pais.”

Entre as propostas, uma orientação na consulta pré-natal sobre o contato pele a pele entre pai e bebê, não só quando a mãe não está disponível (emergências médicas e cesariana) como também, e principalmente, fazendo parte, mais uma vez, da paternagem e da transformação sociocultural é tão fundamental para a parentalidade.

Outras pesquisas demonstram as alterações hormonais presentes quando o homem entra em contato pele a pele com seu bebê.

Em 2011, artigo publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências dos EUA trouxe evidências de que os níveis de testosterona sofrem a influência da paternidade. O estudo foi realizado com 624 homens nas Filipinas com dosagens de testosterona em homens solteiros e casados com filhos.

Altos níveis de testosterona previam sucesso reprodutivo, mas com queda rápida quando esses homens se tornavam pais. Os pais que relataram dedicar 3 horas ou mais por dia aos cuidados com os filhos apresentaram níveis de testosterona mais baixos no acompanhamento, em comparação com os pais que não se envolviam nos cuidados.   


Assim, para concluir, trazer um copo de água para uma mãe que amamenta, especialmente antes de ela pedir, é sempre importante. É um sinal de atenção, de cuidado, de parceria, de apoio, de compreensão, de participação, de presença. Mas só isso não gera parentalidade.

Há muito mais o que ser, o que fazer, o que sentir. E, por questões culturais, sociais, econômicas, educacionais, entre outros, esses princípios não foram transmitidos, ensinados, aprendidos ou introjetados nos pais.

Assim como quando nasce um bebê não nasce uma mãe, também não nasce um pai. É muito necessário criar essa condição, essa dinâmica, essa oportunidade. E não é necessário aguardar o bebê nascer. A parceria nasce no respeito, no reconhecimento, na não violência contra mulheres e crianças passada como base inegociável de um ser que se apresenta como humano.

E o contato pele a pele para o pai pode ser parte dessa conscientização. Pode ser a oportunidade que não era nem imaginada ou sonhada na história da “homenidade”. Será que temos, aqui no Brasil, a possibilidade de, sem julgamentos, sem condenações, de forma empática, informar os homens sobre essa possibilidade?

Que tal começarmos a viralizar?
#peleapelenopai

Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545