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Aleitamento materno e inteligência: Uma relação afetiva

Do BLOG da Editora TIMO

Tags: aleitamento materno e inteligência, aleitamento materno exclusivo, amamentação e neurodesenvolvimento, amamentação e QI, benefícios da amamentação, estudo de Pelotas amamentação, leite materno e desenvolvimento cerebral, OMS aleitamento materno, políticas públicas de amamentação, substância cinzenta e amamentação

por Dr. Moises Chencinski - colunista

23/02/2026

Se alguém que você conhece te dissesse que é mais bem sucedido do que você, que é mais esperto que você, que é mais forte que você, que é mais alto que você e que tem muito mais amigos que você, como você reagiria (ou o que você pensaria)?

Mas, se esse mesmo alguém dissesse que o filho dele tem notas melhores que o seu, que ele é mais esperto que o seu, que ele é mais forte que o seu, que é mais alto que o seu e que tem muito mais amigos que o seu, como você reagiria (ou o que você pensaria)?

O que te incomodaria mais, mesmo que as duas situações fossem reais e verdadeiras? As suas ou as de seu filho? E entre essas afirmações, tem alguma que te causaria maior desconforto?

São várias pegadinhas aqui.

Pode falar de mim o que você quiser, mas não mexe com meu filho”.

1)   Pode falar de você mesmo? Tem certeza?
2)   E quando está se falando sobre seu filho, é sobre seu filho mesmo que está se falando ou é sobre imaginar que muitas das situações de seu filho podem estar sob sua responsabilidade (traduzindo para um “psicologuês” bem simples, que eu não domino, sua CULPA... ULPA... ULPAAAAA)?

Não se culpe. Isso acontece com muita frequência.
E tem mais: muitas vezes em que se quer abordar um FATO, que seja EMBASADO NA CIÊNCIA, o tema é muitas (mas muitas mesmo, de verdade, muitas vezes) levado para o nível pessoal, como se houvesse uma CULPA embutida e envolvida e passa a ser necessário “se defender” de algo pelo qual ninguém foi acusado.

Já, já, você vai entender a necessidade dessa introdução, dessa preparação, de todas essas preliminares. Mas, é importante levar para o restante do texto, a seguinte informação:


VOCÊ NÃO TEM CULPA. Ufa. Agora ficou mais leve. Pelo menos para mim ficou. Vamos lá então?


Pressentimento: Lá vem leite materno de novo?

Então. Faz tempo né? Eu já estava precisando e sentindo falta disso.

Vamos então para FATOS e CIÊNCIA:

- A Organização Mundial de Saúde RECOMENDA o aleitamento materno desde a sala de parto até dois anos ou mais, exclusivo e em livre-demanda até o 6º mês.

- O leite materno é CONSIDERADO o padrão-ouro da alimentação infantil por ter os (macro, micro, médio...) nutrientes necessários para o crescimento e desenvolvimento adequados para a espécie humana.

- O leite materno é um alimento VIVO, o ÚNICO que se modifica do começo ao final da “refeição” (mamada), do começo ao final do dia e no decorrer de todos os dias, enquanto consumido, para oferecer para CADA criança em CADA fase de sua vida o necessário e suficiente para sua evolução como espécie (humana).

Quando se fala sobre crescimento, é sobre o corpo e todos os seus componentes.
Quando se fala sobre desenvolvimento, é sobre aptidões, capacidades, características que nos diferenciam como espécie (mais uma vez, humana).


Um pouco sobre o cérebro

Córtex pré-frontal. Neurônios. Conexões neurológicas. Hippocampus minor. Cerebelo. Neocortex. Lobo temporal. Arcuate fasciculos.

Sem tortura. Não vou abordar nada disso. Quem quiser estudar o cérebro mais profundamente vai se encontrar com esses... nomes. Quero ir para o lado mais simples e mais prático para atingir os meus objetivos aqui.

O sistema nervoso (formado por células conhecidas como neurônios) é dividido em periférico e central, esse composto por encéfalo e medula espinal.

No sistema nervoso central encontramos duas áreas que são muito importantes na sua compreensão: Substância branca e substância cinzenta (assim chamadas pela sua coloração mesmo).

A substância cinzenta é formada pelo corpo dos neurônios. A substância branca é formada pelos prolongamentos dos neurônios, os axônios, que são cobertos pela bainha de mielina (camada protetora de gordura e proteína) que confere a cor branca a essa parte do sistema nervoso central.

Assim, a substância cinzenta (neurônios) é responsável por processar informações, controlar movimentos, fala, raciocínio, emoções e memória. E a substância branca (axônios) é quem transmite os impulsos desses neurônios para todo o corpo (se eu disser cabeamento fica meio feio, mas é quase isso aí mesmo). Ela é encarregada da comunicação. Olha a importância. Quem não se comunica, se estrumbica (Chacrinha – Abelardo Barbosa, para quem quiser pesquisar).

Resumindo: Na substância cinzenta acontece a magia que é espalhada, comunicada e universalizada pela substância branca.


Agora a CIÊNCIA, sem CULPA

Daqui até quase o final do texto, vou incluir referências para quem quiser conhecer e se informar a respeito do tema. Um dos estudos mais impactantes dos últimos tempos foi feito em Pelotas (RS), envolvendo 30 anos da vida (desde o seu nascimento em 1982) de 3.700 participantes, por dois dos maiores estudiosos e epidemiologistas brasileiros (Cesar Victora e Bernardo Horta), reconhecidos mundialmente, com publicações que fizeram história, como essa série sobre aleitamento materno no The Lancet (uma das revistas científicas de maior peso mundial no que diz respeito à CIÊNCIA), de 2016.

Entre as conclusões, uma das mais chocantes à época dava conta de que, se ampliassem de forma quase universal as recomendações sobre aleitamento materno da OMS, “poderíamos prevenir 823.000 mortes anuais em crianças menores de 5 anos e 20.000 mortes anuais por câncer de mama” e “trazendo uma economia mundial de cerca de 300 bilhões de dólares por ano”. 

E um dos artigos dessa série aponta para outro estudo de 2.015 dos mesmos autores, que concluiu que em 2.725 desses participantes, em que se tinha informação sobre aleitamento materno, QI e escolaridade “a diferença média no QI entre os participantes que foram amamentados por pelo menos 12 meses e aqueles que foram amamentados por menos de 1 mês foi 3,60 pontos a mais”, mesmo após ajustes levando em conta muitos outros fatores que podem influenciar a inteligência (genética, ambiente, família, entre outros).

Essa série muito conhecida e outros artigos e publicações geraram e ainda provocam fortes reações de mães que não quiseram, não puderam ou não conseguiram amamentar, como se o fato de não amamentar estivesse “condenando” essas crianças a não serem inteligentes, o que o estudo definitivamente não aborda. E, só relembrando a proposta desse artigo, sem apontar os dedos, responsabilizar ou culpar qualquer mulher.

Uma revisão de literatura (2021), que checou 2165 artigos, selecionou 28 deles para “identificar de que forma o aleitamento materno tem influência no nível de Quociente de Inteligência (QI) e neurodesenvolvimento” e concluíram que “crianças amamentadas têm um QI e neurodesenvolvimento mais elevado, comparando com crianças não amamentadas. Tendo também em conta a duração do aleitamento materno exclusivo, ou seja, quanto maior for o tempo que a criança recebe leite materno de forma exclusiva, maior é o seu Quociente de Inteligência (QI) e/ou neurodesenvolvimento

Artigo publicado no The Journal of Child Psychology ans Psychiatry (2023) demonstrou, em uma análise de 7.860 imagens de ressonância magnética (RNM) em crianças entre 9 e 11 anos, que quanto maior o tempo de  amamentação, maior o desenvolvimento da massa cinzenta, “podendo impactar a personalidade impulsiva e saúde mental no início da puberdade”.

O mesmo resultado foi obtido e publicado no Brazilian Journal of Health Review (2025):O aleitamento materno exclusivo está associado ao aumento do quociente de inteligência, ao desenvolvimento do sistema nervoso, das memórias e do sistema imunológico. Portanto, as políticas de apoio à amamentação devem ser incentivadas para garantir que as crianças tenham o seu pleno potencial de desenvolvimento” e na Revista Foco (2026), esse com uma complementação e explicação interessante: “Destacam-se os efeitos dos nutrientes presentes no leite materno, como ácidos graxos poli-insaturados, vitaminas e fatores bioativos, além da importância do contato pele a pele e da modulação da microbiota intestinal”.

É importante que fique muito claro que o aleitamento materno isoladamente não garante nenhum prognóstico futuro, mas fornece bases para que se atinjam as melhores condições para as crianças. Essa é uma das razões pelas quais, quase todos esses estudos terminam com as seguintes colocações:

“Portanto, as políticas de apoio à amamentação devem ser incentivadas para garantir que as crianças tenham o seu pleno potencial de desenvolvimento”.

“Conclui-se que o aleitamento materno desempenha papel central no desenvolvimento cognitivo infantil, reforçando a necessidade de políticas públicas e estratégias institucionais que ampliem o apoio à amamentação, especialmente para mães trabalhadoras”.

E fecho com uma frase atribuída a Aristóteles:
Qualquer um pode zangar-se - isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa - não é fácil”.

Dr. Moises Chencinski - CRM-SP 36.349 - PEDIATRIA - RQE Nº 37546 / HOMEOPATIA - RQE Nº 37545